Um líder para o PSD.

29 de Maio, 2008 as 9:30 | Em Opinião |

Onde está o problema do PSD? Mais do que falta de ideias, tem faltado uma liderança que as consiga apresentar com credibilidade.

Sim, é mesmo verdade. Eu li os programas dos candidatos à liderança do PSD. Se a sondagem “Os Jovens e a Política”, encomendada pelo Presidente da República, tivesse essa pergunta, eu seria um dos 0,0001% a responder que “sim”.

E quais as conclusões dessa leitura? Que as ideias não faltam no PSD. Santana Lopes apresenta seis linhas de acção, com a originalidade da regionalização do Algarve. Passos Coelho fala das suas opções estratégicas, num estilo mais liberal, de inspiração blogosférica. Manuela Ferreira Leite, mais social-democrata, tenta mostrar que é diferente dos socialistas: “enquanto o PS olha para a sociedade a partir do Estado, o PSD perspectiva o Estado a partir da sociedade”. Se isto fosse um campeonato de ideias não seria fácil escolher o vencedor.

Mas não é isso que está em causa nestas eleições. A crise do PSD não está tanto na ideologia ou na falta de propostas. Ainda se lembram do que propunha Menezes? Desmantelar o Estado, mas sem fechar serviços públicos; descer impostos e não descer impostos; a favor de pactos sobre obras públicas, mas rasgando os pactos de justiça. Tantas eram as contradições que ninguém o levava a sério. Só isso permite explicar que, apesar da grave crise económica e social do país, o PSD continue a descer nas sondagens.

Faz lembrar os últimos tempos do partido conservador inglês. Está na oposição há onze anos, desde 1997. Perdeu as últimas três eleições legislativas. Teve quatro líderes diferentes: William Hague, Duncan Smith, Michael Howard e, finalmente, David Cameron. Os anteriores até tinham boas ideias, mas só Cameron conseguiu encontrar o tom certo para ser olhado pelos eleitores como candidato a primeiro-ministro e ultrapassar os trabalhistas nas sondagens. Tudo indica que ganhará as próximas legislativas.

O PSD sofre uma crise semelhante. Nos últimos treze anos só esteve no poder dois anos. Perdeu três das últimas quatro eleições legislativas. Sucedem-se os líderes sem que nenhum se consiga impor e fazer ouvir pelos portugueses. Onde está então o problema do PSD? Custa-me dizer isto, mas está mais na forma do que na substância. Mais do que falta de ideias, tem faltado uma liderança que as consiga apresentar de modo eficaz.

Os portugueses desconfiam cada vez mais dos políticos e estão cansados de promessas populistas. O PSD deve conseguir encontrar, entre os candidatos, o mais indicado para devolver ao partido a credibilidade perdida. Alguém que encontre o “tom” certo para falar às pessoas. Num registo que só pode ser de competência e de verdade, não uma imagem artificial ou com fórmulas pensadas em gabinetes de marketing político, por mais brilhantes que sejam.

Na minha opinião, Manuela Ferreira Leite é a candidata que melhor pode vencer esta batalha da credibilidade. Quando ela fala da grave crise social do país, ou dos novos pobres, vê-se que é genuína, que fala do que conhece. Percebe-se que se preocupa com os problemas das pessoas. Sente-se verdade nas suas palavras. Verdade retratada nos grandes planos da entrevista à RTP: um rosto enrugado mas verdadeiro, como escrevia Pacheco Pereira no “Público”. O PSD tem muito a ganhar com a experiência e a clareza de Ferreira Leite.

Não terá um caminho fácil como líder do PSD. A credibilidade perde-se em pouco tempo mas demora tempo a recuperar. Será preciso dizer que (ainda) não é possível descer impostos, quando todos querem ouvir promessas de descida do imposto sobre os combustíveis. Será necessário ter autoridade para unir um partido dividido em querelas internas de que já ninguém quer saber. Conseguir atrair os profissionais mais competentes para a política partidária. Fazer bem o trabalho de casa: estudar e ouvir os especialistas para definir políticas sectoriais consistentes. Ganhar primeiro o argumento, para depois conquistar o poder e saber o que fazer com ele.

No PSD acontece esta coisa curiosa, os militantes têm um duplo poder: escolher o líder do partido, mas também o potencial novo primeiro-ministro. Todas as sondagens têm apontado Manuela Ferreira Leite como a melhor colocada para enfrentar José Sócrates nas próximas eleições. Acredito que ela será a primeira mulher a liderar o PSD e a próxima primeira-ministra de Portugal.

(fonte:Diário Económico)

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