O “Regresso” do PSD.

26 de Junho, 2008 as 18:54 | Em Opinião |

Na última semana tem circulado uma nova ideia entre políticos e analistas: a de que a não haver maioria absoluta do PS em 2009, se deveria concretizar um novo Bloco Central entre o PS e o PSD.

Segundo Vasco Pulido Valente, a crise económica grave que se vive em Portugal justifica tal coligação. Aliás a única altura em que tal ocorreu no passado, entre 1983 e 1985, foi precisamente num período comparável de crise económica. A pensar que anunciar tal estratégia antes das eleições poderá levar à desmobilização do eleitorado (se Manuela não é alternativa ao PS para que serve votar nela?), Henrique Monteiro diz que o que se pretende ao lançar esta ideia é apenas queimar mais um líder do PSD. E Ferreira Leite confirma na manchete de Sábado do Expresso: “Uma aliança com o PS? Só se fosse doida!”

Independentemente do mérito da ideia, que, como já se vê, tem, além de possíveis vantagens para a definição das políticas públicas no país, alguns riscos políticos e eleitorais importantes para os partidos envolvidos, este facto político interessa pouco para já, pela sua plausibilidade. Este facto é importante porque constitui uma mudança radical na forma de olhar o PSD: assinala o regresso de um partido credível, potencial parceiro de coligação, quem sabe até governo em 2009.

E se não acreditam que a mudança foi assim tão radical basta refrescar a memória lendo os jornais no seguimento da demissão de Luís Filipe Menezes e da campanha das directas no PSD. Há escassas semanas, a opinião publicada e a maioria dos jornalistas políticos insistiam na ideia de que o PSD ia acabar. Aliás, nem se compreendia como o partido tinha surgido. Era um partido que não tinha qualquer consistência ideológica, que estava irremediavelmente dividido e permanentemente em crise. Mas, para já, o agora apregoado renascimento do PSD é tão prematuro como foi o anúncio da sua morte. Vejamos os factos:

Manuela Ferreira Leite venceu com 38 por cento dos votos as directas e o partido revelou-se bastante dividido. Em resultado disso, e como seria de esperar, o Conselho Nacional eleito este fim-de-semana no Congresso do PSD reflectiu essas divisões - a lista de Pedro Passos Coelho ficou a apenas quatro conselheiros da de Ferreira Leite (16 contra 20). Tal como o seu antecessor, Manuela Ferreira Leite não é deputada à Assembleia da República. Assim, como ocorria com a anterior liderança, esta também será bicéfala, com Paulo Rangel a assumir o cargo anteriormente detido por Santana Lopes. É certo que o perfil e a carreira política de Manuela Ferreira Leite são substantivamente superiores aos de Luís Filipe Menezes. Além disso, a nova líder do PSD tem sabido distinguir-se em alguns pontos importantes, tanto do seu antecessor como do próprio governo e de José Sócrates. Mas também se tem pautado por alguns silêncios injustificados. E, mais fundamentalmente, ainda não conseguiu comunicar uma estratégia política para o país que seja alternativa à do PS. Não o fez durante as eleições directas do PSD nem no recente Congresso. Finalmente, ainda não há sondagens consistentes que assinalem uma recuperação nas intenções de voto e justifiquem o optimismo de um fortalecimento do PSD.

É precisamente para isso que as elites mediáticas afectas ao PSD estão a trabalhar afincadamente. Este episódio que se desenrola perante os nossos olhos é quase um estudo de caso sobre a (in)dependência da cobertura jornalística em Portugal, a forma como se cria “opinião” política e a importância do spinning. Mais do que um Regresso do PSD, estas últimas semanas assinalam o Regresso das Elites do PSD. E comprova um facto com que Luís Filipe Menezes amargamente se confrontou quando foi líder. As eleições directas no PSD permitiram-lhe ingenuamente pensar que bastava ganhar uma maioria de militantes para ser líder do partido e, quem sabe um dia, Primeiro-Ministro. A verdade é que de nada adianta vencer o partido se não se contar com esta gente.

(fonte:Jornal Negocios)

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