O país ganhou com Ferreira Leite.

3 de Junho, 2008 as 8:58 | Em Opinião |

No seu estilo atabalhoado e ferido, Luís Filipe Menezes já tinha pré-anunciado, há duas semanas, a vitória de Manuela Ferreira Leite quando disse que a antiga ministra precisava de ganhar com grande vantagem para ter legitimidade.

Menezes acertou no resultado, falhou na conclusão. Ferreira Leite chega à liderança do PSD com absoluta e inatacável legitimidade. Chega ao topo do maior partido da oposição ao vencer nas urnas os dois adversários possíveis nesta altura e - mais importante - depois de um longo percurso político que a testou até ao limite em várias responsabilidades políticas. Em democracia, ganha-se e perde-se por um voto. Ferreira Leite ganhou. Ponto final parágrafo.
Ao contrário, portanto, do que disse Menezes, o problema da nova líder social-democrata não é de legitimidade – isso ela tem de sobra. O problema é outro. Não há, neste momento, em Ferreira Leite quase nada de novo que possa motivar o eleitorado. Além do cansaço em relação a José Sócrates - um bom ponto de partida -, não há nela uma chispa de mudança capaz de mobilizar as pessoas para um grande objectivo comum. Com as devidas distâncias, há Obama a menos em Ferreira Leite. Falta-lhe energia renovadora. Há passado a mais e futuro a menos. É uma evidência: ninguém muda para chegar ao mesmo.

O desafio de Manuela Ferreira Leite está, portanto, lançado. Ela tem de mostrar que a sua longa experiência política é um mais, não um menos. É um trunfo, não um peso. Num partido sem o dinheiro e as prebendas de quem exerce o poder, será determinante impor depressa um rumo de qualidade e exigência que coloque o PSD no nível de credibilidade que entretanto se diluiu em lutas intestinas. Ferreira Leite não o conseguirá sozinha. Precisa da inteligência, do trabalho e da cumplicidade de Alexandre Relvas, Rui Rio, Pacheco Pereira e de outros que ela terá de encontrar e promover. Não se trata de encher o país de ‘slogans’ pseudo-reformistas sem conteúdo; mas de apresentar soluções concretas para os problemas concretos do país.

E são tantos os problemas que não é difícil defender uma proposta alternativa ao PS. Ao fim de três anos de governação, o estilo e o conteúdo de Sócrates estão sobre a mesa. O grau de intervenção que o primeiro-ministro quer ter na economia também. Ferreira Leite é dos políticos mais habilitados para ter este confronto com o primeiro-ministro. Ao contrário do que aconteceu até aqui, vamos poder discutir seriamente dois modelos de exercício de poder. Haverá contrastes substantivos, não apenas conflitos superficiais. A discussão será equilibrada, sólida e consequente, embora inevitavelmente demagógica. O país ganhou com esta nova liderança no PSD.

(fonte:Diário Económico)

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