Amor em tempo de guerra.

30 de Maio, 2008 as 14:50 | Em Opinião |

Quando Sócrates reage e governa em função da conjuntura e do calendário eleitoral, a sua política não se distingue da cosmética e da propaganda.

Quando Mário Soares espirra, o PS de Sócrates constipa-se. Há uma certa ironia quando Mário Soares, que colocou o “socialismo na gaveta”, acusa o Governo de não ser socialista. Habilidades da política portuguesa. E quando as bandeiras negras aparecem Portugal fora, Sócrates nega responsabilidades e apresenta a pesada herança do PSD. No mínimo, é um argumento fácil, populista e adolescente.

O primeiro-ministro utiliza uma conjuntura de crise internacional para esconder os problemas estruturais do País. A questão não está no choque petrolífero, mas na persistente tendência que Portugal apresenta para o crescimento da pobreza e da desigualdade. Por outro lado, pelo menos desde o século XIX, Portugal revela-se incapaz de acompanhar o ritmo de crescimento da Europa – o atraso do País resulta de uma inacção que se transformou em característica nacional. Quando Sócrates reage e governa em função da conjuntura e do calendário eleitoral, a sua política não se distingue da cosmética e da propaganda.

Quanto à questão da igualdade, ou a velha paixão do socialismo, sobra apenas o velho mito da sensibilidade social da Esquerda. E resta ainda o reflexo ideológico que a pouco e pouco vai caindo para revelar o verdadeiro rosto de uma Esquerda perdida no mundo pós-socialista. A geração de Sócrates não procura a igualdade, mas pratica uma hipocrisia residual elevada à condição de política pública. Visto e revisto, talvez já não existam socialistas - morreram soterrados nas ruínas do século XX.

Quanto ao PSD, o panorama está longe de entusiasmar o País. Manuela Ferreira Leite, ou a candidata “conservadora”, apresenta-se pela Esquerda com a ênfase na “nova pobreza” e na “sensibilidade social”. No caso de Pedro Passos Coelho, se a forma parece nova, o estilo permanece velho. Quanto a Santana Lopes, é o eterno masculino numa corrida sem fim. Finalmente, o debate ideológico foi pobre e incipiente, confuso e escolar, onde a real dimensão política fez cerimónia e primou pela ausência. Se nada mudar, tudo permanecerá na mesma.

A questão que o Governo do PS e os candidatos à liderança do PSD deveriam responder é a seguinte – porque razão Portugal vive no pior de dois mundos, sem a riqueza de um Estado liberal e com os encargos de um Estado social. O que falta no debate é simplesmente a política. Ou seja, um conjunto de políticas ao serviço de uma estratégia e com um objectivo para além do imediato. No prazo de 10 anos, que perfil para Portugal na Europa?

(fonte:Diário Económico)

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